20/07/2009 - Mais escolarizadas do que os homens, brasileiras são maioria nos cursos superiores, de graduação e de pós
Ciça Vallerio - O Estado de S.Paulo
- Como se não bastasse o tradicional acúmulo de tarefas - casa, trabalho, filhos... -, grande parte das mulheres arruma forças para investir na educação, durante o pouco tempo que sobra. Hoje, elas são maioria nos cursos de graduação e pós-graduação, representando 56%, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD/IBGE). Comparando-se aos homens, também é maior o porcentual de mulheres que concluem o curso superior (62%), conforme levantamento do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP), em parceria com o Ministério da Educação (MEC).
Estar atualizada e desenvolver-se intelectualmente é uma das prioridades de mulheres das classes alta e média, aponta a pesquisa Movimentos Femininos, realizada pelo Ibope Inteligência. "A inserção no mercado de trabalho impulsionou o desenvolvimento das competências femininas, e elas passaram a ir cada vez mais atrás de qualificação", observa Nelsom Marangoni, diretor executivo do Ibope. "A busca pela independência financeira e psicológica tem impulsionado esse quadro." Entenda por isso a maior autonomia para tomar decisões pessoais e profissionais, característica que é marcante especialmente nas mulheres da classe AA, com renda familiar acima de R$ 9.700,00 - grupo cujo foco está predominantemente voltado para a carreira.
Nessa fatia, 83% dizem que "fazem tudo para ter independência financeira", e 75% perseguem o crescimento profissional, buscando atualizar-se frequentemente. Esses dados fazem parte de um estudo divulgado no começo deste ano, no qual foram entrevistadas 1.750 brasileiras das principais capitais e pertencentes às classes sociais AA, AB e C, com idades entre 18 e 49 anos.
Desde 2001, o universo acadêmico concentra mais matrículas femininas do que masculinas, conforme levantamento do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep). De 2000 a 2007, a participação de mulheres nas universidades aumentou 76,92%.
PROCESSO CONTÍNUO
Reciclar-se constantemente é o mantra dessa leva, como Gilvana Viana, de 41 anos, que trabalha como gerente comercial de uma produtora musical. Ela finaliza em agosto sua segunda pós-graduação - desta vez, em trade marketing pela Universidade Paulista -, mesmo dividindo seu tempo com trabalho, marido e dois filhos adolescentes. Sem contar as especializações de curta duração, que faz periodicamente.
"Especializar-se faz a diferença no mercado. Por isso, quero fazer ainda um mestrado no ano que vem." Para ela, assim como para muitas outras mulheres, estudar é mais do que uma necessidade: é um prazer. "Ir para a faculdade me faz tão bem quanto correr no parque."
A maciça presença feminina é notável nas universidades. Nos cursos de pós-graduação da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), elas ocupam 58% das vagas. São maioria nas salas de aula de graduação da Escola Superior de Propaganda e Marketing, e já são metade dos alunos de MBA, também da ESPM, que era considerado reduto masculino até pouco tempo atrás.
Esse fato causou frisson no último Executive MBA Council Conference, em 2008, encontro anual que reúne os dirigentes das principais escolas de negócios do mundo. Enquanto a frequência média nos cursos de MBA norte-americanos e europeus é, hoje, de uma mulher para cada cinco homens, na ESPM, é de um para um. Ou seja, 50% dos matriculados são do sexo feminino.
"A tendência é aumentar", avisa Richard Lucht, diretor nacional de pós-graduação da ESPM. "Na pós de Comunicação e Design, elas representam 70%, bem diferente do passado, quando a proporção era de uma mulher para dez homens." Esse salto aconteceu até mesmo no curso de Gestão em Vendas, cuja frequência sempre foi predominantemente masculina, mas, agora, a presença feminina já representa 45%.
Patrícia de Almeida Prado (foto de capa), de 39 anos, faz parte dessa estatística. Na ESPM, foi aluna de cinco cursos curtos de especialização, concluiu a pós-graduação em Comunicação e, atualmente, está no primeiro ano do MBA. Tira do próprio bolso o alto investimento que faz nos estudos, já que não conta com ajuda de custo da empresa onde trabalha, como representante comercial. "Não vou esperar esse tipo de benefício para me aperfeiçoar", fala Patrícia, que é formada em Educação Física, e em Publicidade e Propaganda. "Fiz uma poupança para os estudos."
SACRIFÍCIO VÁLIDO
O lema é não se acomodar, nem mesmo aquelas que conquistaram um posto de comando. Depois que concluiu a graduação em Administração de Empresas, a gerente de Relações Humanas, Márcia Fernanda Schreiner, de 33 anos, nunca mais parou de estudar. Em seu currículo, consta uma pós-graduação em Administração de Recursos Humanos e um MBA com extensão na Universidade de Ohio, nos Estados Unidos. Agora marca presença no Master em Empreendedorismo e Inovação, na escola B.I. International.
Como sacrifícios fazem parte do negócio, Márcia Fernanda sai de sua cidade, Santa Cruz das Palmeiras, no interior de São Paulo, para assistir às aulas que acontecem aos sábados, em São Paulo. Tudo isso depois de dar expediente na empresa onde trabalha, em Pirassununga, cidade vizinha à sua. Nos dias de aula, acorda às 5 da manhã para enfrentar os 300 quilômetros de estrada até chegar à escola, às 8 horas. E só sai de lá no fim da tarde.
"Como as mulheres têm uma inquietude natural, acabam se especializando cada vez mais, o que é muito bom", opina. É uma das quatro mulheres, de um total de 30 alunos, que frequentam o curso.
Apesar de ainda serem minoria, as mulheres avançam também na Fundação Getúlio Vargas de São Paulo. O coordenador e professor do Ceag (Curso de Especialização em Administração para Graduados), José Ernesto Lima Gonçalves, comemora essa evolução. Em 20 anos, o porcentual feminino saltou dos 25%, de um universo de cerca de 2 mil alunos, para quase 40%.
"Como o mercado de trabalho continua abrindo oportunidades para as mulheres, elas investem mais na educação para subir na carreira", observa Gonçalves. "Esse é um grande diferencial, até porque ainda existem barreiras, como o salário, já que ganham menos do que os homens e necessitam sempre mostrar seu valor."
A forte presença feminina na FGV fez com que os dirigentes passassem a valorizar a questão do gênero dentro da escola. O coordenador do Ceag conta que começaram a notar que as atuais frequentadoras têm, sobretudo, idades entre 28 e 30 anos, fase em que a mulher já acumula funções. Não raramente, aparece alguma grávida no curso e, assim, perceberam que o tratamento para elas deveria ser especial. Como? Flexibilizando as regras, para que não abdiquem dos estudos. "Esperamos que essas futuras gestoras levem esse tipo de cuidado para as empresas", conclui.
A executiva Ana Marta Bertoni, de 32 anos, grávida de quatro meses, sabe bem o valor do respeito às mulheres. Ela esperou concluir seu MBA internacional na FGV (OneMBA), para realizar seu sonho de tornar-se mãe. Agora, descarta a possibilidade de engatar um novo curso de longa duração nos próximos três anos. Permanecem, porém, nos planos da executiva cursos de curta duração. "O convívio com o mundo acadêmico e as trocas que temos com os colegas são essenciais para a formação pessoal e profissional." |