09/04/2009 - K. é uma autêntica representante da classe média que rala para garantir boa educação para os filhos. Por isso, faz acrobacias financeiras de forma a pagar uma escola particular que facilite o ingresso da prole numa universidade respeitada.
Mas K. está com um problemão: após 15 anos de esforço, com uma vida familiar austera, sua filha A. não passou na Fuvest para Medicina. Por pouco. Ela teve ótima pontuação na segunda fase, uma pontuação que seria suficiente para passar nos dois anos anteriores, mas não neste.
K. acredita que sua filha está morrendo na praia. Ao chegar ao vestibular, A. encontrou uma concorrência mais acirrada, com a participação de alunos que receberam a bonificação do Inclusp, o programa de inclusão social da USP que dá até 12% de pontos adicionais para estudantes que cursaram os três anos do ensino médio em escolas públicas.
K. jamais foi contra iniciativas de equalização de oportunidades. É uma paulistana esclarecida e progressista, que quer uma escola pública de qualidade, capaz de ensinar o suficiente para que seus alunos cheguem à porta das melhores universidades com capacidade de disputar uma vaga. Enquanto esse sonho não se realiza, diz ela, são necessárias medidas emergenciais para reduzir os danos para as gerações de jovens do presente.
Então K. sofre com o drama de sua filha, enquanto pensa no futuro de L., seu filho menor, que vai chegar ao vestibular somente daqui a seis anos. "Imagine o que será a concorrência no futuro?...", se preocupa ela.
Como não é dada a desistir, K. já sonda alternativas para L.. Tem conversado com outras famílias e, segundo conta, ouve algumas considerando seriamente a possibilidade de matricular seus filhos na escola pública a partir do primeiro ano do ensino médio.
"Depois, faz Enem, faz cursinho, ganha os pontos dos programas de inclusão e chega ao vestibular com mais chances de ser aprovado", explica ela.
No vestibular para 2009, das 175 vagas de Medicina na USP, 66 foram ocupadas por egressos da escola pública, o que equivale a 37.7%. É um recorde. A USP não revela a nota final dos que foram aprovados, mas garante que só 7,4% dos estudantes da rede pública precisaram lançar mão dos 3% de pontos de bônus. O resto teria sido pela participação no Enem e pela nota da avaliação final do ensino médio.(leia)
Talvez a escola pública sofra um choque nos próximos anos, com uma alta procura por parte de famílias antes freqüentadoras da cara rede particular. Vai ser interessante observar que transformações poderão ocorrer. Talvez haja uma forte pressão por abertura de mais vagas, com mais investimentos, nas boas e concorridas universidades públicas do País. Vai ser interessante ver como a burocracia vai reagir.
Enquanto isso, a filha de K. pensa em tentar outro curso, menos disputado. |